sábado, 25
 de 
maio
 de 
2024

Vida urbana sem carro

Cultivado como objeto de liberdade, oportunidade, igualdade e portador de uma sonhada mobilidade sem limites, o automóvel parece enfrentar uma crise de identidade. Não é mais o que acreditava ser e as cidades estão cada vez mais a desencorajar seu uso. Inicialmente em suas áreas centrais e cascos históricos e, recentemente, em bairros inteiros, concebidos para neles se viver um novo estilo de vida, totalmente livre do carro ou quase.

Na área metropolitana de Phoenix no Arizona, considerada a capital da expansão urbana nos Estados Unidos da América, onde as pessoas dependem quase que exclusivamente de automóveis pessoais para se locomover, foi inaugurado recentemente um novo bairro, planejado para se viver livre de carro. Projetado para atrair moradores dispostos a romper de verdade com a dependência nociva e, em alguns casos, já tóxica com o automóvel, usando como lema o bordão publicitário: “Como você se move, define como você vive”.

Com o sugestivo nome de “Cul de sac”, o novo bairro, além de ruas sem saídas, de uso exclusivos de pedestres, ciclistas e demais formas de mobilidade ativa, tem a pretensão de ser diferente de tudo aquilo que foi construído nos EUA nos últimos 150 anos, incorporando conceitos de crono-urbanismo, onde tudo que se precisa para viver está a alguns minutos de casa a pé ou de bicicleta. Excetuando-se, no caso, os postos de trabalho acessíveis por transporte público numa estação de metrô de superfície contínua aos limites do bairro.

O ato de planejar e construir um bairro para mais de mil moradores, livres dos automóveis e seus espaçosos estacionamentos, carrega consigo objetivos de resgate de um jeito de viver com maior sociabilidade e urbanidade. Despertando, como desejam os autores do projeto, um senso de lugar e espírito comunitário entre os que lá vão viver. Aliás, todos futuros locatários, pois não haverá proprietários. Talvez a mudança tão radical no estilo de vida exija uma espécie de estágio probatório capaz de comprovar estar o inquilino livre do “autolismo”, a dependência química proveniente do uso contínuo e desmedido do automóvel. Desculpem o neologismo, não resisti.

Se fosse somente em Phoenix, confesso que eu ficaria com aquela máxima do Barão de Itararé: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”, para duvidar do poder transformador da iniciativa. Há, entretanto, notícias de propostas semelhantes acontecendo em outras cidades americanas. Acompanhadas de uma crescente ampliação das áreas livres de carro em regiões centrais de cidades em todo o mundo. O que parece existir e, de certo modo, ser irreversível é o aumento da consciência do quanto as externalidades negativas causadas pelo automóvel tem gerado nas cidades e em seus moradores. O que nos faz concluir ser inevitável que elas gostem cada vez menos deles.

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