sexta-feira, 19
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abril
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2024

Cidades, entre promessas e ilusões

Vicente Loureiro – Arquiteto e urbanista, doutorando pela Universidade de Lisboa, autor dos livros Prosa Urbana e Tempo de Cidade

Este ano, teremos eleições municipais em todo o país, onde mais de 5.000 prefeitos e cerca de 60.000 vereadores serão escolhidos para cuidar das demandas reprimidas das cidades e de seus habitantes. Compromissos políticos serão assumidos e pactos firmados em direção à melhoria dos serviços públicos e da gestão dos espaços de uso comum do povo. Além, é claro, das promessas de ajudar os amigos, também muito comuns durante a temporada de caça aos votos.

Considerando que as cidades são compostas por construções e infraestruturas, e animadas pelas pessoas que as habitam, seria conveniente que o período de campanha eleitoral ajudasse a consagrar propostas e projetos capazes de melhorar as condições concretas de vida dos habitantes, principalmente dos que mais precisam. E que tal esforço pudesse ser objetivamente mensurado, a ponto de validar ou não as obrigações de fazer acontecer anunciadas.

Administrar a vida das cidades, mesmo as pequenas, não é tarefa singular. Sobram, em geral, deficiências, e faltam recursos. Há prioridades “inadiáveis” em todos os setores, assim como cobranças, incluindo as judiciais, cada vez mais em voga. Saber onde, como e quando alocar os parcos recursos disponíveis ou mesmo os alavancados tornou-se talvez a mais importante e difícil das decisões. Se, durante a fase de convencer o eleitor, for possível também construir um propósito comum para a cidade, é provável que as ações e medidas essenciais e transformadoras comecem a sair do campo fértil das promessas, fazendo renascer a esperança de que dias melhores estão por vir.

É verdade que em burgos muito pobres, as possibilidades de em um mandato apenas, as perspectivas de desenvolvimento serem significativamente alteradas, são muito limitadas. Porém, é inegável que a postura dos cidadãos diante dos desafios presentes poderá ficar mais proativa, desde que sua participação nas decisões de governo seja estimulada e respeitada. Mudar hábitos, costumes e atitudes dos cidadãos diante de alguns objetivos comuns contribui muito para a percepção de que a vida pode ser melhor, aqui e agora.

Fazer funcionar bem as infraestruturas e os serviços públicos são ações que interferem no “hardware” das cidades. Conscientizar e promover o engajamento da população em atitudes que aperfeiçoem a cidadania e elevem o padrão de urbanidade atuam sobre o “software”. Uma gestão comprometida em desenvolver a cidade de modo mais harmônico, sustentável e principalmente inclusivo terá que agir nas duas frentes, sabendo de antemão que as mudanças na retaguarda das cidades costumam estimular um comportamento de vanguarda mais animado de seus moradores.

Criando o sentimento coletivo de que aquele lugar pode ter outro destino.

São muitos os desafios, mas não faltam oportunidades para inovar e fazer mais e melhor nos serviços públicos responsáveis por assegurar uma qualidade de vida digna à população. Incluindo os procedimentos para consulta e envolvimento dos moradores nas decisões e posturas diante do que deve e pode ser feito. Novas tecnologias estão aí para aproximar a cidade dos cidadãos, e eles das respostas às suas necessidades mais prementes. A campanha eleitoral é território fértil para a gestação de um futuro mais promissor, desde que não se destine apenas a vencer as eleições como costuma acontecer.

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