sábado, 25
 de 
maio
 de 
2024

Por Vicente Loureiro – Arquiteto e urbanista, doutorando pela Universidade de Lisboa, autor dos livros Prosa Urbana e Tempo de Cidade

Recorro a antiga charada “o que é que encolhe mas cresce?”, “A mola”, para poder falar de dois fenômenos interessantes captados pelo censo de 2022 do IBGE. A redução da população da cidade do Rio de Janeiro em quase 2%, quando comparada a verificada no censo de 2010, e o crescimento vertiginoso dos domicílios instalados na cidade, chegando perto de 3 novos para cada 8 existentes em apenas 12 anos. Quer dizer: demograficamente o Rio encolhe ao mesmo tempo em que vê crescer, como nunca, o estoque de seus domicílios.

Enquanto no Brasil os domicílios aumentaram perto de 5 vezes mais do que o número de habitantes, no Rio esta proporção chegou perto de 40 vezes. Um recorde preocupante, principalmente se levarmos em consideração para onde e como essa renovação expressiva de domicílios se deu. O que de fato foi produzido formalmente para atender tal crescimento e se aconteceu onde a cidade já existia ou, então, foi produto de sua expansão territorial informal e precarizada. Olhando para frente e considerando cenários do desempenho demográfico e sócio-comportamental recentes, residirá no domar a elasticidade do efeito mola o maior desafio urbanístico da cidade?

A causa deste encolhimento populacional e crescimento físico da cidade para os lados e para cima resultam, principalmente, da redução do número apurado pelo Censo de pessoas por domicílio, chegando, no Rio, a razão de 2,1 moradores por cada unidade recenseada, provocada pela queda da taxa de natalidade, pelo aumento da expectativa de vida e incrementada por mudanças comportamentais da sociedade, tais como mais pessoas vivendo só, tanto adultos quanto idosos, e os novos arranjos familiares entre outras, impulsionando a necessidade de construção de mais domicílios, mesmo tendo a população diminuído. Um aparente paradoxo, mas aritmeticamente fácil de explicar.

Os números falam por si. Enquanto entre 2010 e 2022 o Rio perdeu perto de 100 mil habitantes, no mesmo período instalaram-se na cidade mais de 800 mil novos domicílios e a explicação é simples: se cada vez menos pessoas vivem sobre o mesmo teto, será preciso construir novas unidades para poder abrigá-las. Daí o efeito mola: a população encolhe, mas a cidade segue crescendo e, pior, a produção de moradias populares, nesse mesmo período, foi responsável por no máximo 10% dos novos domicílios plantados na cidade.

Estudos realizados para avaliar o que pode acontecer com o Rio em termos demográficos e territoriais nos próximos anos indicam um crescimento da ordem de 5% do território comprometido com a urbanização a cada década. Uma superfície equivalente as áreas do Centro e do Porto Maravilha juntas. Se ocorresse toda essa expansão na mesma parte da cidade, já seria difícil ajustar a infraestrutura existente às novas demandas, o que dirá ter que provê-la de modo pulverizado e disperso. Um desafio de gestão urbana extraordinário.

O lado positivo é considerar a energia mecânica centrada na elasticidade dessa mola. Saber aproveitar toda essa potência para produzir um desenvolvimento urbano inclusivo e sustentável pode vir a ser um ponto forte da cidade não mais uma ameaça. Só o tempo dirá. Mas é possível ajudar o tempo. Quem sabe o novo Plano Diretor não dá essa força.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on telegram
Telegram
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email