sábado, 9
 de 
dezembro
 de 
2023

A PNAD e as cidades

Por Vicente Loureiro – Arquiteto e urbanista, doutorando pela Universidade de Lisboa, autor dos livros Prosa Urbana e Tempo de Cidade

Esta semana mais uma Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) foi divulgada, revelando algumas tendências com significativos impactos sobre como estão vivendo e vão viver as pessoas nas cidades brasileiras nos próximos anos, apresentando, inclusive, algumas mudanças comportamentais aparentemente irreversíveis, indicando transformações importantes no modo como produziremos e reproduziremos a vida urbana por aqui. Um sinal de alerta a considerar.

Uma das transformações mais interessante é que estamos no caminho de construir, cada vez mais, apartamentos do que casas em nossas cidades. Atualmente, cerca de 45% dos domicílios nelas edificados podem ser chamados de apartamentos. Ainda que representem apenas 15% de domicílios existentes, percebe-se uma mudança em curso no jeito de morar. Em São Paulo, por exemplo, o número de apartamentos já é maior do que o de casas. No restante do país ainda estamos longe disso, mas, em uma ou duas décadas, outras grandes cidades atingirão o patamar da capital paulista.

Outra constatação importante da pesquisa é o aumento de pessoas vivendo só, sobretudo idosos. Em quase 12 milhões das 74,1 milhões de residências existentes, segundo a PNAD, isso já acontece. Esse percentual passou de 12,5% para 15,9% nos últimos 10 anos, em visível viés de alta. Isso significa que a pressão por apartamentos menores e adaptados para idosos deve seguir crescendo, impulsionado também por famílias de tamanho menor.

Uma mudança comportamental que também chama atenção é o aumento verificado no percentual de imóveis alugados. Já passam de 21% e registraram alta importante em relação a PNAD anterior. Tal tendência pode contribuir, associada ao comportamento da economia, a volta da velha prática de construir para alugar, acompanhando o que se faz em boa parte das cidades do mundo desenvolvido, indicando a possibilidade da poupança privada ajudar no enfrentamento do déficit habitacional inabalável. A conferir.

Talvez a mais preocupante das revelações apresentadas pela PNAD seja o percentual de domicílios com automóveis: são praticamente 50% deles. Para acentuar a gravidade da situação, em 25% deles existem motos. Esses números indicam que somos um país no rumo da mobilidade urbana de natureza individual e motorizada, contrariando tudo aquilo que se apregoa hoje em termos de sustentabilidade das cidades com o fortalecimento dos transportes coletivos e da mobilidade ativa. O Brasil não só parou na contramão como segue nela em marcha batida a nos fazer parecer impossível reverter tal propensão. O uso do FGTS para aquisição de automóvel, reforça essa tendência nociva às cidades.

A PNAD indica, portanto, boas e más perspectivas para as cidades e elas nos fazem lembrar do que nos ensinava Jayme Lerner: ” tendência não necessariamente é destino”. Mudar rumos é sempre possível no existir das cidades. É preciso querer (fritar o peixe), sem deixar de examinar os números (ficar de olho no gato).

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on telegram
Telegram
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email